terça-feira, 25 de agosto de 2009

Fotos da performance PÚBLICO PROTAGONISTA realizada no Campo Grande

Imagem: Ludmila Aquino / Performance de Vitor Borges

















A proposta da performance PÚBLICO PROTAGONISTA é utilizar o espaço público como ponto de partida para discutir questões pertinentes ao próprio espaço público. Ele é tema, objeto e suporte imaginário da obra. O protagonista ao qual o trabalho se refere é o espaço público, mas ao mesmo tempo aponta para o “público” (cidadão comum) que teve a oportunidade de presenciar a ação que foi realizada na Praça do Campo Grande, em Salvador, Bahia, ou de assistir ao vídeo na internet. Tanto o espaço público quanto o público (transeuntes), são protagonistas de uma mesma estória, e ao mesmo tempo, contraditoriamente, são anônimos (figurantes) e passam despercebidos no feérico filme da vida contemporânea.

O espaço público é ocupado constantemente de forma indevida e de diversas maneiras, desde a utilização de um outdoor, ou cartazes que poluem a cidade, passando pelos mendigos e moradores de rua, até os camelôs que são constantemente motivo de discussão em algumas mídias. Em contrapartida, sobre a desocupação indevida do espaço público pouco se comenta, e esse é o ponto que mais interessa dentro do conceito da obra.

Os grandes empreendedores do ramo imobiliário criaram a teoria de que vale a pena se trancafiar num condomínio repleto de privilégios. Hoje em dia os condomínios não se resumem apenas a casas, quadras esportivas e piscinas, eles vão além. A cada dia que passa o leque de possibilidades vem aumentando, onde alguns mega-empreendimentos são compostos de boates, escritórios, parques, bibliotecas, restaurantes e etc. Tudo para o conforto do cidadão que pode pagar por isso e que está cansado da violência e más condições do espaço urbano público. Eles procuram nos condomínios o conforto e a segurança que não encontram na esfera pública. Eles criaram "cidades" (microorganismos) quase auto-suficientes dentro das grandes cidades que estão à deriva. São novas regras, novas fórmulas de convivência, novo ritmo. Fugindo da “cidade real”, onde todos os conflitos sociais reverberam, eles se iludem achando que estão se protegendo do caos que tomou conta das metrópoles, mas por mais que eles tenham proteção e conforto em seus domínios, freqüentar a cidade ainda é inevitável, e uma vez solto na selva de pedra, todos nós somos alvos em potencial.

À medida em que nos afastamos do espaço público abrimos brecha para que todo tipo de violência e descaso povoe esses lugares. Por que motivo o estado forneceria segurança a uma praça pública moribunda? Quando nos afastamos do espaço público pagamos um preço muito caro por isso, e não adianta teorizar e exigir melhorias de dentro de nossas casas, no conforto do nosso lar. Para o espaço público voltar a ser público é preciso que os cidadãos provem que esse espaço é importante pra sociedade, caso contrário, nada será alterado. O ciclo que começou com a iluminação eficiente dos espaços públicos, que enfim foram descobertos e desfrutados, parece entrar numa nova era. Dessa vez, de degeneração, pelo menos dentro da realidade social brasileira e baiana (Soteropolitana) especificamente, pois cada sociedade se relaciona de forma distinta com os seus espaços comuns, impossibilitando qualquer tipo de generalização.

O “projeto condomínio” é uma idéia que já nasce morta, ou pronta para matar a “cidade real” que será cada vez mais ocupada pela intolerância e informalidade. Não importa se a cidade está entregue às traças, ou mal iluminada, ou sem a mínima segurança, pois de dentro dos muros rodeados por câmeras e cercas elétricas a realidade é mais branda. É como se o problema fosse sempre do outro, e enquanto o outro não apresenta soluções, cada um cria a sua. Crianças criadas nesses condomínios não estão sendo preparadas para enfrentar o mundo, mas para fugir dele. A cidade será uma estranha para essa geração que nasce junto com a internet e os condomínios superestruturados. Ir à “cidade real” corre o risco de se tornar uma grande aventura, onde cada passo pode ser o último e cada esquina terá cheiro de morte. Dessa maneira não pode haver ligação íntima entre cidade e cidadão, que propiciaria o ânimo para cada um cuidar e proteger aquilo que é bem comum de todos. Não podemos conhecer um país se não caminharmos tranquilamente sobre as suas ruas, não podemos criar vínculos afetivos sem o contato e a convivência.

Quem pode paga por uma cidade segura (condomínios), quem não pode se contenta com a “cidade real” – separatismo evidente, e para muitos, inevitável. Dentro do espírito individualista de ver o mundo o espaço público é descartável, ou melhor, é a morte de qualquer coisa que simbolize a coletividade, palavra que está mudando de significado constantemente e que talvez, nesse momento da história, esteja passando por uma de suas mais significativas mutações. O que hoje para nós significa coletividade, amanhã não terá mais sentido, sendo assim, a própria performance em questão passará a ser analisada através de outra perspectiva, quando novos conceitos e significados serão incorporados e emitidos pela própria sociedade, como a coletividade virtual, que suga as pessoas da vida urbana real, apesar de também apresentar seus benefícios.

Há uma frase interessante do cineasta Gustavo Acioli que não sei definir exatamente se é um pensamento otimista, ou pessimista. Talvez as duas coisas, é como a história do copo meio-cheio, ou meio-vazio, depende do ponto de vista de cada um. A frase diz o seguinte: "As chances das coisas melhorarem, são iguais as chances das coisas piorarem."

Quem define o rumo dos acontecimentos é o coletivo, e se hoje vivemos essa realidade a culpa recai sobre cada um de nós, inclusive sobre o artista que vos escreve, tão torpe e complacente quanto qualquer um.

0 comentários: